Do Caderno 27 do Padre Eustáquio
Já ressuscitou e não está mais aqui. Ainda ontem a Santa Igreja, envolta no negro manto de luto, da consternação e da dor, amargamente chorava a morte do Autor da vida. Hoje, a religião, trajada de galas festivas, com os altares revestindo-se de seu brilhante aparato, anuncia o júbilo, o contentamento do universo inteiro, quando o Redentor do mundo se levantou da fúnebre campa. É costume que todo triunfo deste mundo acabe no sepulcro; aqui, porém, é no sepulcro que o triunfo toma início.
A vida de Jesus era uma vida tão escondida, tão cheia de humildade, cheia de tanto desprezo, sem decoro algum perante o mundo; porém a morte, que costuma tirar todo o decoro, todo o brilho, revestiu-se aqui de um esplendor e de uma magnificência desconhecida. Mostramos Jesus na Semana Santa em sua bondade, em seu grande amor pelo gênero humano; no dia de hoje, pela sua gloriosa ressurreição, Ele nos prova a sua onipotência. A vida de Jesus está cheia de estupendos milagres, mas nunca operou um milagre maior, ou melhor, para provar a sua divindade: deu luz aos cegos, a palavra às línguas dos mudos, a paz aos possessos, o andar aos paralíticos, ouvido aos surdos, até a vida aos mortos; mas a si mesmo dar a vida não deixa mais dúvida nenhuma na divindade de Jesus Cristo.
Quando os judeus exigiam um sinal da divindade de Jesus, Ele lhes falou:
“Não vos será dado outro sinal senão o sinal de Jonas”. Quer dizer, o sinal da ressurreição: como Jonas ficou três dias dentro da baleia, assim Jesus ficaria três dias no sepulcro para, ao terceiro dia, levantar-se para a vida. O universo inteiro parece unir-se na mais perfeita harmonia para festejar o esplêndido triunfo do Corpo de Jesus ressuscitado. A terra, que em sua morte tremeu de horror e espanto, agora se agita em seus eixos, exultando de alegria e contentamento; o sol, que escondera a sua face nas trevas para não contemplar o drama, já ao despertar da aurora ostenta soberbo os seus raios fulgurantes; o pássaro canta mais alegre, as estrelas brilham mais, o perfume das flores enche o ar.
Há mais sol, mais luar, mais estrelas a brilhar, mais canto de pássaros, porque há alegria e satisfação na natureza inteira por causa da ressurreição de Jesus. E ainda este grande milagre, que no correr dos tempos tem feito aceitar-se a fé, tem confirmado o Cristianismo, tem autenticado o Evangelho, tem sido o ensino dos simples, tem convertido os infiéis, tem santificado os pecadores, consolado os justos, aberto o Céu, exaltado a humanidade, e, enfim, transformado toda a face do universo. Bendito seja, portanto, o tempo, o dia e a hora em que este sacrossanto milagre foi operado. Nos convida a Igreja para jubilar deste grande afeto: o triunfo de Jesus é bem diferente do triunfo do mundo; o triunfo de Jesus começa no sepulcro, e o do mundo aí acaba. Na Semana Santa, Jesus mostrou toda a sua bondade; aqui, a sua onipotência. Agora vem confirmar a nossa fé.
Não são menos admiráveis os incidentes extraordinários que acompanharam a promulgação desse prodígio. As santas mulheres, que chegaram ao santo sepulcro para embalsamar o Corpo de Jesus, encontraram somente os panos em que o Corpo tinha sido envolvido, e um anjo, branco como a neve, sentado sobre a pedra revolvida do sepulcro. Um santo anjo lhes disse: “Não temais vós”. Oh, como essa palavra, no fim da frase, é significativa e misteriosa! O anjo lhes queria dizer: temam os príncipes dos sacerdotes, que conspiraram contra o Senhor; Judas, que O traiu; Pilatos, que O condenou à morte; os algozes, que O crucificaram.
Mas vós, almas fiéis e devotadas ao divino Salvador, que O acompanhastes até o Calvário, que O adorastes na cruz, que viestes visitá-Lo no túmulo, nada tendes a temer. Porém, as mesmas palavras do anjo, outrora pronunciadas sobre o túmulo do Senhor, parecem ainda hoje ressoar no universo inteiro. Sim, temam os incrédulos que desprezam a palavra divina; temam os hereges que desfiguram e corrompem a religião do Calvário; temam os orgulhosos potentados que escravizam e flagelam os seus próprios irmãos; temam os soberbos que votam ao desprezo os pobres de Jesus; temam, enfim, todos os filhos ingratos da Igreja, que escarnecem do seu culto, zombam de suas práticas, motejam a sua piedade, desprezam o seu ensino, suas crenças e seus mandamentos.
Todos estes temem, e têm muito a temer, os tremendos castigos decretados pela justiça divina. Mas vós, almas generosas, para quem Jesus crucificado é sempre o caro objeto de vossos desejos e de vossa afeição; vós que não viveis senão da glória de servir a Jesus crucificado, em vosso espírito pela fé, em vosso coração pela caridade, em vosso ser pela Sagrada Comunhão, em vosso corpo pela santidade de vossas ações — tudo deveis esperar de sua ternura e bondade. Contemplas o santo sepulcro; contempla-o com todo o teu espírito; contempla-o sem cessar, e vós compreendereis quanto um Deus nos amou e quanto Ele merece o nosso amor.
Oh santo sepulcro de Jesus ressuscitado — porto da vida eterna —, em vós quero morar, em vós quero sempre pensar, em vós quero me esconder. Esconder-me do mundo. De vós, ó santo sepulcro, um dia há de ressuscitar meu pobre corpo, para estar convosco, convosco, ó Jesus, ó meu Amado Jesus, sempre, sem fim, nos séculos dos séculos. Amém. Jesus. Amém, Jesus.